Carolina - Original
>> segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A uma distancia prudente, o pai pressentia as tempestades porque seu filho de onze anos passaria pela vida afora: o menino se apaixonaria por uma amiga da mesma idade - que tivera a delicadeza de corresponder seus sentimentos -, mas dela se cansara num piscar de olhos.
Não contente, falara com orgulho mal disfarçado desse cansaço ao melhor amigo de quem então ouvira a frase tranquilizadora: "As mulheres são todas iguais". Por acaso, o pai também escutara - e se espantara com a infinidade de espelhos que se estilhaçavam a seu redor. Pensara: triste amizade. Não fosse uma disciplina pessoal que a idade a duras penas injetara em suas veias, suspenderia o minúsculo idiota pela camiseta para gritar-lhe - o que exatamente?
O primeiro sinal da paixão, o pai se recordava agora, acorrera alguns dias antes, durante o jantar, e também tomara a forma de uma incontinência verbal:
- Acho que estou a fim da Carolina.
A fim? seu radar de pai solteiro, em geral ágil e confiável, não lograra impedir o tom aflito de sua voz, que soara como um balido de ovelha:
-É...?
Carolina era de fato deslumbrante em sua mais mínimos detalhes, da cor marfim de sua pele à fragilidade de seus pés. Existem crianças quase irreais de tão perfeitas, avaliava o pai em sua tristeza, relembrando o tom de sua voz, a finura de sua cintura e a textura dourada de seus cabelos. E o filho, em sinal provável de estupor facilidade com que atingira seu objetivo - teria a luz sido excessiva? -, abria agora mão desse pequeno núcleo de perfeição, transformando o pai em testemunha involuntária e impotente de sua perda.
Por que assustar- se e ser infiel a si próprio desde tão cedo?
E agora lá iam os dois, o filho e o amigo iluminado, resmungando palavras de ordem que repetiriam anos a fio por bares e botequins. Dois homúnculos a quem a fazer, a não ser torcer. Nesse turbilhão de equívocos eram forjadas guerras e epidemias.
- Papai, estamos indo jogar bola. Tudo bem?
Bolas, bares, bombas. Medo e busca de poder... vontade de dispensar o amigo com um ligeiro pontapé, agachar- ao lado do filho e implorar: meu filho, vem cá...
Edgard Telles Ribeiro

4 comentários:
Pq n tem o resumo??
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